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UMA VISITA AO ZOOLÓGICO DE BARCELONA


ZOO DE BARCELONA

(Barcelona Zoo)

Era um objectivo com mais de uma década.


Finalmente, neste mês de Outubro de 2013, concretizei um dos muitos objectivos que tenho enquanto estudioso da vida animal. Conhecer uma outra instituição da WAZA (World Association of Zoos and Aquariums), que não fosse o nosso Jardim Zoológico de Lisboa.

Aproveitando uma pequena folga de uma viagem de trabalho, arranjei um tempinho livre para visitar o Zoo de Barcelona, em Espanha. Infelizmente, não foi possível fazê-lo com a disponibilidade e condições necessárias para com calma analizar em detalhe todos os pormenores de que precisava. Porém, creio que consegui captar o essêncial, para ter uma ideia do que este Zoo possui para integrar um dos objectivos principais dos programas para a conservação das espécies, ou mesmo em termos pedagógicos e educativos que estas instituições podem e devem fazer para desenvolver uma cultura de respeito e conhecimento sobre a vida selvagem.

Como disse, usufri de pouco mais de um par de horas para visitar o Zoo. Mas ficou o desejo concretizado. Não o sonho satisfeito, por que me faltou tempo para dar duas ou três voltas completas ao parque como costumo fazer nestas ocasiões. 
Este é o Zoo de "Snowflake", o "Floco de Neve", o Gorila Albino que viveu neste parque desde que era bebé até aos 38 ou 40 anos, idade com
que morreu a 24 de Novembro de 2003 com um cancro de pele, do qual padecia desde 2001. Dado se encontrar nos ultimos dias de vida em grande sofrimento e dores foi praticada a eutanásia (felizmente!). Foi pai de 22 crias, de 3 fêmeas diferentes. Nenhuma das suas descendências trouxe as suas tão raras caracteristicas. Até hoje, desconhece-se se existe ou existiram outros gorilas albinos. "Snowflake", era e será uma das mais belas memórias que tenho de um animal em cativeiro, juntamente com a nossa "Huìla" a fêmea Elefante Africano que viveu no Zoo de Lisboa, igualmente durante décadas e da qual muitos de nós nos lembramos.

Bom, mas voltando ao que esta experiência me trouxe, em conhecer um outro Zoo, que me pudesse servir de referência e comparação para a ideia que tenho sobre o Zoo de Lisboa. e como dizer:
Não sei se poderei estar a ser injusto, se disser que fiquei... desiludido e bastante desapontado. Mas na realidade, as minhas expectativas ficaram muito mas muito aquém daquilo que esperava. E por temer, que não possa estar, correcto e preciso, vou antes descrever o que vi e o que senti...

Digamos que entrei, emocionado e cheio de expectativa, pois pela grandeza daquilo que já conhecia da cidade esperava algo manifestamente surpreendente.
Lobo Ibérico (Canis lupus signatus)
O primeiro impacto, o primeiro contacto visual com a primeira espécie era muito importante. E ali estava, o Lobo Ibérico. Logo o Lobo, uma das minhas espécies preferidas, um animal do qual é tão dificil descrever o magnetismo que possui... ainda por cima, o Lobo Ibérico; um dos nossos ex-libris, de Portugal e Espanha e tão ameaçado e em risco de extinção se não for devidamente protegido. O espaço era grande e espaçoso, com um ou outro cuidado para aproximação do seu habitat natural. Olhei, olhei, procurei onde estariam, até que por fim dei com o primeiro exemplar. Procurei outros, mas não vi. Procurei de novo mas nada. Apenas aquele um único Lobo, que me pareceu triste e solitário. Será que haviam outros? Não quero acreditar que sim, mas se for verdade, esta foi uma primeira imagem que me deixou profundamente abalado.
Resolvi, continuar. Naquele momento, preferi pensar que deveria haver alguma explicação que eu desconheceria e que eventualmente outros exemplares poderiam estar mais escondidos... alguma fêmea metida na toca, como já havia visto em tempos no Zoo de Lisboa.
Gorila das Planícies do Ocidente (Gorilla gorilla gorilla)

O meu contacto seguinte não me deixou mais entusiasmado. Confesso que esperava uma localização mais exuberante e apropriada para os primatas: os Gorilas das planícies e Orangutangos, foram aqueles que mais preocuparam dado que são espécies em que o risco cresce permanentemente, excepção seja dita que no caso dos Mandrills o espaço apesar de não ser grande está mais ou menos adaptado ao habitat deste símio.
Mandrills (Mandrillus sphinx)

Seguiu-se, entre outros espaços, um outro que achei demasiado vazio, pouco trabalhado e com pouca privacidade; o dos Leões marinhos. Contudo, ali bem perto, o recinto dos Facocheros é suficientemente espaçoso e próximo a alguns espaços do seu habitat natural. Ao contrário da habitação criada para os ursos pardos, que apesar de ter uma dimensão razoável para os dois exemplares que consegui ver, penso que poderia ter outra arquitectura ambiental, mais equilibrada e mais segmentada.

Foca-comum (Phoca vitulina)

Há um recinto que me pareceu bem conseguido, bem estruturado e cuidado, o que de certa forma tendo em conta o cativeiro que por si só é já violento, consegue que a espécie se mova sem um stress excessivo e próximo de um ambiente que encontraria em alguns dos locais de onde é originário... falo do "Terra dos Dragons", espaço do Dragão de Komodo.

Rinoceronte Branco (Ceratotherium simum)

Hipopotamo (Hippopotamus amphibius)
No caso dos mamíferos de grande porte, como os Elefantes africanos, Rinoceronte branco ou hipopotamos comuns, encontrei três situações completamente distintas que me levaram os sentimentos a sensações de extremos opostos. O espaço dos Elefantes é dos mais estranhos que vi num parque zoológico, não pela aridez mas por ser um recinto perfeitamento confuso de barreiras electrificadas e de espaços condicionados, sinceramente aquilo que consegui ver perturbou-me pelo o habitat criado. Ao contrário, o recinto do hipopotamo é do melhor que vi, pelo menos até, para esta espécie, foi o espaço que mais me preencheu em todo o Zoo. Quanto ao Rinoceronte branco, é um local triste, estreito, desadaptado, e por existir apenas um exemplar ainda me deixou mais deprimido quase tanto como o animal se deveria sentir.

Porém,também houve surpresas que se traduziram em contactos que até à data eram inéditos. Pela primeira vez, vi de perto Mangustos listados, Capivaras, Pinguins de Humboldt, Cães da Pradaria, Guanacos, Flamingos de Cuba. Mesmo tendo presente, sempre, em que condições acabo por contactar com estas espécies, não deixa de ser significativo para mim esta experiência em termos reais. Para alguém que estuda, observa, regista a vida animal há quarenta anos, todas as interacções que visem uma relação directa são importantes, mesmo determinantes, para me ajudar a entender melhor a a forma, a natureza e o comportamento da vida selvagem.

Para além destas surpresas que acabei de mencionar, tive ainda a satisfação de saber que o Zoo de Barcelona tem três das mais importantes espécies que foram consideradas Extintas na Natureza (EW). Infelizmente só vi duas, por alguma razão escapou-me a terceira, não sei porquê pois estive nessa zona de recintos. Aqui só poderei falar das que vi...
Nos dois casos, apesar de querer acreditar que estão ao abrigo do programa de reprodução em cativeiro para reintrodução no habitat, fiquei preocupado, um mais do que o outro, mas em ambos ficaram-me questões no ar.
Bisonte Europeu (Bison bonasus)
Na primeira espécie, o Bisonte Europeu (ao qual se refere o meu último artigo), temos uma manada de 13 indivíduos onde se inclui uma pequena cria. Pareceram-me bem tratados e perfeitamente integrados enquanto manada. Porém (e tem havido sempre algum mas), o espaço deixa uma sensação em ser demaisado exíguo para animais deste porte, e fiquei com a impressão que para além do espaço visivel pouco mais havia do que uma área de recolha dos animais. Estamos a falar de animais que se movimentam bastante, são ruminantes, e que podem facilmente atingir a meia tonelada... por isso, penso que o habitat estava desajustado às necessidades desta espécie.


Orix de Cimitarra (Oryx dammah)

Com a segunda espécie, dá-se exactamente o contrário; o Orix de Cimitarra, é uma espécie igualmente com o estatuto de Extinta na natureza (EW). Só que neste caso, a provação deixou-me um pouco desorientado. Esta espécie habita um recinto de tamanho considerável, com uma construção arenosa perto das caracteristicas das suas antigas condições na natureza... contudo, ali habitam, pelo que vi, apenas 3 exemplares. O que a ser verdade, e se não estiverem outros escondidos algures, então; não consigo entender como é possível que este três indivíduos com uma possível diversidade genética estão confinados a viver isolados desta forma quando a espécie se encontra tão ameaçada?
  
Quanto à terceira espécie, foi daquelas que não consegui ver. Infelizmente, o pouco tempo e o cansaço de uma viagem de madrugada não me deixaram com as condições ideais para analizar o parque com a disponibilidade necessária... O Veado do Padre David, também Extinto na Natureza, é uma das espécies que há muito procuro observar de perto. Perdi a oportunidade! Tanto para avaliar as condições como para estudar de mais perto esta espécie tão embelemática e demasiado vulnerável.

Esta foi a viagem a um parque zoológico que há muito sonhava. Quando olho para o que tive oportunidade de ver e mediante as condições em que o fiz, não posso fazer uma leitura concisa e objectiva. Contudo, aquilo que me ficou na memória e registado, foi um pouco desilusório. Esperava um grande Zoo, há altura de uma das cidades mais bonitas que visitei até hoje. Na realidade, é um parque com um elevado número de espécies, algumas raras em cativeiro, não muito vulgares na maioria dos Zoos, com uma área substâncial para que se pudesse fazer um trabalho de conservação das espécies bastante importante. Mas não é essa a ideia que trago...
Demasiado árido, pouco equilibrado em termos de habitats, estruturas desadequadas, outras pouco dimensionadas para o tipo de espécies instaladas, profundamente desmatizada no interior de muitos recintos, o verde é ofensivamente raro tendo em conta as origens de muitos dos animais. E por fim, algo que me impressionou preocupatemente... não sei se do cansaço, se de "falta de poder de observação", se por outra razão qualquer; mas ver em muitos (demasiados) casos... um único exemplar da espécie, e dois ou três em espécies que necessitam de uma vivência em grupo... foi o que mais me chocou!

Espero sinceramente, que sido falha minha e que não reparei o suficiente para procurar em buracos, de baixo de água, escondidos nas partes sombrias ou mesmo nos abrigos de recolhimento...

Deixo aqui uma das que mais me marcou!

Existe um Bongo macho ao fundo, deitado, perto da zona mais escura. Está sozinho, não se vislumbra outro exemplar. Este é um animal que vive em grupos sociais. É uma espécie ameaçada e em risco de extinção... se está na realidade sozinho, não deveria acontecer e tanto a instituição como a EAZA ou WAZA deveriam trabalhar em conjunto para evitar uma situação destas. Dado não ter encontrado nenhuma indicação que me explicasse de qual subespécie se tratava, fiquei sem saber o risco elevado deste case... pois se se trata da subespécie do Bongo da Montanha (Tragelaphus eurycerus isaaci) este caso é grave, pois é uma espécie em elevado risco de extinção, se for um Bongo das Planícies (Tragelaphus eurycerusencontra-se hoje numa situação perto de espécie ameaçada.

Após esta ansiada experiência, e depois de acompanhar as evoluções durante 35 anos do Jardim Zoológico de Lisboa, fico com outras certezas e ainda uma outra concepção mais exigente sobre o verdadeiro papel que deveriam ter estas instituições; tal como a responsabilização por aquilo que também deveriam representar. É claro que, mediante a constatação, de determinadas falhas nos principais objectivos deste tipo de parques toda a comunidade internacional que defende os direitos dos animais e aqueles que se debruçam sobre estudos da vida selvagem... devem exigir aos Zoos que por alguma razão não cumpram em rigor a sua finalidade, que façam um esforço junto da EAZA ou WAZA para que determinadas situações possam ser mitigadas para bem das espécies, dos próprios seres que ali habitam como do impacto pedagógico e cultural junto do público em geral.

Um jovem Dragão de Komodo (Varanus Komodoensis)

















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