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LINCE-IBÉRICO... O MEU TRIBUTO A CADA UM E A TODOS ELES!

KENTARO & KAHN, E COMPANHIA!... 






4 Imagens póstumas de KENTARO
Este artigo é dedicado a todos os linces, e em especial a todos os linces que infelizmente, tiveram um fim e um destino trágico… mas, acima de tudo, dedicado a Kentaro (que me marcou até hoje pela sua perseverança de viver). Como artigo, este não pretende ser nenhum trabalho técnico-científico, mas sim um relato documental sobre a recuperação e a reprodução do Lince-Ibérico, com a grande finalidade da sua reintrodução no habitat natural da Península Ibérica.

Hoje, sabe-se que um primeiro censo do Lince Ibérico em 2016, estimou uma população livre de 440 exemplares, com um crescimento de 36 indivíduos em relação a 2015, que era de 404 animais, quando em 2014 calcularam-se cerca de 327. Mais de ¾ desta população habita a região da Andaluzia.
Kahn
Até ao presente momento são a existência de nove núcleos em Espanha e Portugal que definem hoje em dia a população da espécie. A maior população situa-se em Andaluzia, na Andújar-Cardeña (176 linces), seguindo-se a de Doñana-Aljarafe (76 linces). Os outros estão estabelecidos nos Montes de Toledo, Sul de Badajoz, Serra Morena Oriental, Vale do Guadiana-Mértola (Portugal). Guarrizas e Gaudalmellato são dois dos núcleos recentes que evoluíram ganhando uma importância determinante para a preservação do Lince na sua distribuição histórica. A região da Extremadura espanhola, tal como a de Granada, são também hoje zonas novas que se encontram num processo evolutivo na reintrodução da espécie.

Artemisa
 QUANDO A NATALIDADE É TÃO PRECIOSA…

Em termos de memória documental… Em 2011, habitavam no CNRLI (Centro Nacional de Reprodução do Lince-Ibérico em Silves), 19 linces: 16 adultos e 3 jovens (11 machos e 8 fêmeas).

Era
Fruta
Este ano só foi possível formar 23 casais, espalhados pelos cinco centros de reprodução existentes na Península Ibérica. Este objectivo é traçado de acordo com diversos factores. Em que, neste momento, são mais determinantes factores como; a dimensão das respectivas instalações dos centros, o número projectado de exemplares a serem libertos após a fase critica de sobrevivência das crias, e as necessidades zoológicas das regiões de Andaluzia, da Extremadura espanhola, de Castilla-La Mancha e de Portugal. No Centro Nacional de Reprodução de Silves, os casais emparelhados foram Biznaga e Drago, Kaida e Enebro, Era e Fado, Jabaluna e Jerte, Fresa e Hermes, Flora e Madagascar. Só Kaida não ficou gestante. Destes casais, à um realce muito especial para um macho que pode trazer uma enorme mais-valia no que respeita à genética… Madagascar. Este exemplar foi capturado na natureza para enriquecer os genes dos futuros linces a serem libertados. Esta situação pode ser vista como algo difícil de aceitar, e para mim também o é, mas compreendo a importância de tudo ter que ser feito para melhorar a estrutura biológica desta espécie e criar condições excepcionais para evitar que haja qualquer factor que potencialize os riscos de extinção. A libertação de tantos exemplares originários das mesmas estruturas genéticas implica por vezes o reforço e sacrifício por parte de um ou outro exemplar, por muito que isto me custe. Um dos outros factos que marcou este ano de reprodução, foi o que aconteceu com o casal Juromenha e K5… que através da parceria com o Leibniz Institute for Zoo and Wildlife Research, com a primeira tentativa de uma inseminação artificial… veio criar uma expectativa numa condição que se pode revelar essencial no futuro, mas que necessita do investimento em ensaios desta natureza para eventuais situações consideradas excepcionais.

Katmandú e Jacarandá e as crias
Jacarandá filmada por uma câmara armadilha


Em 2016, foram igualmente formados 23 casais (5 em El Acebuche, 6 em Silves, 5 em Zarza de Granadilla, 6 em La Olivilla e um no Zoo Jerez), resultando 58 crias e das quais 48 (23 machos e 25 fêmeas) sobreviveram.

Em 2015, decidiram-se por 27 casais; contudo 3 deles não emparelharam. A esperança ficou-se nos 24 restantes (6 em Silves, 6 em Zarza de Granadilla, 5 em El Acebuche, 5 + 1 não gestantes em La Olivilla e um no Zoo Jerez), originando 61 crias e destas sobreviveram 53 (17 machos e 25 fêmeas; nesta leitura com base na informação a que tive acesso, faltam 11 exemplares, que curiosamente, são o número de crias nascidas no Centro de Silves...) 

Em 2014, somente 18 casais colaboraram no programa de reprodução, e destes houve 2 não gestantes e 2 que resultaram em abortos; sobrando apenas 14 reprodutivos (4 em Silves, 2 em El Acebuche, 4 em Zarza de Granadilla e 4 em La Olivilla), com 36 nascimentos e 24 (10 machos e 14 fêmeas) os linces sobreviventes.

Em 2013, os casais eram 25 em que 3 deles não foi possível levar o emparelhamento para a frente. Dos 22 (7 em Silves, 4 em Zarza de Granadilla, 5 em la Olivilla e 6 em El Acebuche). No CNRLI, resultaram destas uniões 17 crias, das quais 15 começaram de imediato o processo de edução selvagem para a sua futura reintrodução na natureza.

Em 2012, foram 28 os casais tentados emparelhar, mas 4 não resultaram. Dos restantes 24 (8 em Silves, 5 em El Acebuche, 8 em La Olivilla, 2 em Zarza de Granadilla e 1 no Zoo Jerez), só 21 ficaram gestantes. Das 59 crias, sobreviveram 44 após os 2 meses. No CNRLI, forma reintroduzidos no seu habitat 6 fêmeas e 5 machos dos 19 linces nascidos no Centro.

Em 2011, nos quatro centros (Silves, El Acebuche, La Olivilla e Jerez), foram 5 os partos e 13 as crias nascidas mas somente 5 sobreviveram.

Calabacín
Drago


Enebro

O ano passado (2016), em Silves, foram juntos seis casais. Todavia, somente, 4 fêmeas ficaram gestantes. Artemisa com Foco (3 crias, todas sobreviventes), Fruta e Jabugo (com 4 crias), Juromenha e Fresco ( 3 crias)… Infelizmente, Era e Fado, não foram felizes, pois a única cria gerada acabou por morrer. Destas 10 crias que irão contribuir para as populações ibéricas, seis delas são fêmeas e as outras quatro são machos. Nos outros centros de reprodução foram: 19 crias em Zarza de Granadilla, 9 em La Olivilla, 8 em El Acebuche e 2 no Zoobotánico Jerez em Cádiz… totalizando as já referidas 48 crias sobreviventes na última temporada. 83% numa natalidade complicada é um enorme sucesso e esforço de todos aqueles que se encontram envolvidos em salvar esta icónica espécie selvagem. Este dado é ainda mais significativo, quando temos que ter em conta que algumas destas fêmeas são estreantes na maternidade, o que nem sempre trás os resultados que mais gostaríamos; é natural que o processo reprodutivo fracasse.

Outro elemento importante neste projecto e no programa, é o número de crias nascidas e animais identificados com indícios ou episódios de epilepsia. São já 17 os casos registados, 2 deles em 2016, pelo menos desde 2008. Esta anomalia genética que afecta estes exemplares, são um grave revés no programa de reprodução, dado que, como é espectável para criar uma população saudável este tipo de patologia não é de todo recomendável para não transmissão de genes. 
  
Éon
Era

As primeiras crias a nascerem em 2017, no CNRLI em Silves, aconteceu a 28 de Fevereiro. Uma ninhada de 3 crias. Mas esta notícia ainda prima por uma extraordinária relevância; isto pelo facto, de os progenitores se chamarem: Biznaga (mãe pela primeira vez em 2011) e Drago. Esta fêmea de 12 anos (fundamental para o programa), com este parto, já foi mãe de 17 crias (para além destas recém-nascidas, 9 foram libertadas ao abrigo do programa “LIFE+Iberlince”, 3 morreram ainda no chamado período neonatal e 2 agora adultas continuam no Centro de Reprodução em Silves). Quanto a este macho, foi o progenitor de 23 crias (contando com as crias deste ano, mais 10 que foram libertadas, 3 que continuam no Centro e 7 não conseguiram sobreviver).

2016, trouxe, como referi, 48 crias sobreviventes e destes jovens linces são 40 os que fizeram parte das soltas previstas para este ano, foram preparados com os meios e as adaptações necessárias para serem libertados no seu habitat tradicional este ano.
Fresco
E para 2017, é igualmente espectável, que entre cerca de 30 a 40 das crias nascidas durante ano, nos cinco centros em Silves, Zarza de Granadilla, El Acebuche, La Olivilla e do Zoo de Jerez… venham a ser em 2018 libertas em várias regiões da Península. Aqueles que acabem por não ser envolvidos neste processo de reintrodução na natureza, irão certamente, enriquecer os efectivos que se encontram nos centros de reprodução.

Para já (ainda que prematuramente), a temporada deste ano no que diz respeito a nascimentos em Silves, a 30 de Março… salda-se em 15 crias nascidas no centro. Mais quatro que em 2016.

Azhar
O Centro Nacional de Reprodução do Lince Ibérico, em Silves começou o programa de recuperação da espécie em 2010, com apenas quatro casais. Azahar (o primeiro lince, fêmea nascida em 2004, que chegou ao centro a 26 de Outubro de 2009 e que se encontra hoje no Jardim Zoológico de Lisboa, juntamente com Gamma nascido em 2010) e Drago, Erica e Enebro, Era e Calabacin, Espiga e Daman. Ao longo destes anos todos, nasceram perto de 100 linces em Silves. Sete anos depois, os casais que estão a entrevir no programa não os mesmos, apenas a fêmea Era de nove anos, e os machos Drago e Enebro, se mantiveram. Este ano a escolha do macho que emparelhou com esta fêmea, recaiu sobre Fado. Deste acasalamento, nasceram a 17 de Março, duas crias. O ano passado, infelizmente, a única cria gerada por Era, acabou por falecer aos fim de dois dias. Até ao presente momento, este é o único parto desta fêmea conseguido (assim esperamos e desejamos) depois destes anos todos. Nascida em liberdade na Serra de Andújar em Espanha, nunca se adaptou ao estado de cativeiro, mesmo com um tratamento nos últimos seis anos ao seu estado de ansiedade, à sua agressividade e aos resultados inconsequentes de reprodução… tem demonstrado agora um comportamento muito mais efectivo com a sua nova prole.
Espiga

Outro caso a sublinhar sobre a recente história do Lince-Ibérico é, Fresa. Uma fêmea magnifica, e a mais corpulenta de todas com cerca de 14 kg, é um caso de sucesso. Progenitora de 15 crias até hoje. Tinha parido 3 crias em 2015, este ano gerou 4 crias (esta é a segunda vez que gera este número de crias) no dia 26 de Março, após emparelhada com Hermes (a sua primeira ninhada no CNRLI).

Jabaluna e Jerte (chegou ao CNRLI, em 2016 vindo de Zarza de Granadilla onde nasceu), foram pais de 3 crias, nascidas a 25 de Março. Esta fêmea é também ela um caso marcante neste processo de recuperação da espécie. Nascida no Centro El Acebuche, em Março de 2012, foi abandonada ao nascer pela sua Mãe Boj. Sobreviveu numa incubadora durante um semana, e foi devolvida à mãe após esse período. Uma situação singular, pois nunca acontecera que uma cria fosse aceite depois de uma rejeição. Apesar de ser mãe pela primeira vez, esta fêmea de cinco anos mostra do ponto de vista maternal um bom comportamento. É filha de Damán II, macho fundador do CNRLI e actualmente no Centro de El Acebuche,

Gamma no Zoo
Também o casal Flora e Madagáscar geraram 3 crias a 28 de Março. Contudo, neste caso, a notícia mais surpreendente, é a experiência inovadora neste centro em manter o macho junto da família. Uma situação até esta altura nunca vivida, mas que parece estar a funcionar com normalidade, apesar de que calculo que sujeita a uma monitorização mais atenta. Esta experiencia acontecera anteriormente, com sucesso no ano passado, no Centro de El Acebuche. Esta fêmea é mãe de 11 linces (7 deles já reintroduzidos na natureza) em Silves. Ao passo que, este macho com dois anos, vindo do parque Nacional de Doñana e oriundo de El Acebuche, é importante devido ao facto de trazer novos genes para uma maior diversidade biológica dos exemplares existentes no centro nacional.

Por fim, falta saber o resultado da gestação de Juromenha. Aguarda-se… e espera-se com êxito, o parto desta fêmea fecundada com a primeira inseminação artificial em Lince. Esta fêmea de cinco anos, nascido a 5 de Março de 2012, e filha de Biznaga e Drago, é um dos casos de sucesso do esforço das equipas técnicas quando têm que intervir em situações que as crias correm risco de vida. Foi abandonada pela mãe juntamente com a irmã Janes, ainda na caixa do ninho. Retiradas num momento crucial em que já se encontravam muito fracas, a terceira cria não teve a mesma sorte acabando por falecer antes da operação. Levadas para o centro de incubação, estiveram dois a três meses no processo de adaptação até serem de novo reintroduzidas juntas dos progenitores, que acabaram por as aceitar de novo e ensiná-las a caçar sozinhas. Torna-se ainda mais especial, porque foi a primeira fêmea nascida no centro a ser mãe; com Fresco a 11 de Março de 2016, geraram 3 crias. 

Lagunilla com a suas crias
O programa de reprodução do Lince-Ibérico em “ex-situ” (fora do seu ambiente natural) a nível ibérico iniciou-se a 28 de Março de 2005 (uma data que me é muito cara), em El Acebuche (Parque Nacional de Doñana) Huelva, em Espanha. O casal emblemático que deu esperança a este projecto foi Garfio e Saliega, responsáveis pela primeira ninhada num centro de reprodução: as crias chamaram-se Brezo, Brisa e Brezina.

No Zoobotánico de Jerez, os trabalhos começaram com um desafio imediato; criar quatro crias: Esperanza (nascida em 2001), Aura e Saliega (nascidas em 2002), e Cromo (nascido em 2003)… transferidos mais tarde para El Acebuche.

O CNRIL, como se sabe, arrancou com Azahar, vinda do Parque Zoobotánico de Jerez de la Frontera.

Em Zarza de Granadilla, foram quatro os exemplares que iniciaram ali o programa de reprodução: Gitano, Galeno, Granito e Fábula.

Por seu lado, em La Olivilla, Camarina e Cuco foi o casal seleccionado para abertura deste centro.

QUANDO A NOTÍCIA É O REPOVOAMENTO…    


Katmandú
 A reintrodução dos Linces em território português, começou a 16 de Dezembro de 2014; uma data que deve ser celebrada por todos os conservacionistas nacionais, pois é um feito histórico para fauna do nosso país e preservação da nossa biodiversidade. Katmandú (macho) e Jacarandá (fêmea) deram inicio à recuperação com um novo núcleo da espécie em Portugal. Até ao final de 2016, foram reintroduzidos 19 indivíduos no Vale do Guadiana, 12 deles mantêm-se adaptados a esta região; definida no programa como: “Sítio Rede Natura 2000 Guadiana”. Sendo regularmente monitorizados por uma equipa de técnicos, que os seguem por rádio, GSM e foto-armadilha. É a este casal, que se deve a existência permanente e o regresso do Lince-Ibérico a terras lusitanas. Mas a sua história está marcada igualmente, por um outro feito extraordinário; o ano passado a 5 de Maio surgiu a notícia que há muito se esperava… a do primeiro lince nascido em liberdade desde do seu desaparecimento do território nacional… Um facto que não acontecia certamente, há mais de 40 anos no nosso território. Foi dado à luz num buraco de pedra ou rocha, comprovado na altura pelas fotos das armadilhas-fotográficas. Um acontecimento que deverá ter ocorrido na 3 semana de Março.


Liberdade
Na 1ª época de libertação do Lince-Ibérico em Portugal, decorrida entre Dezembro de 2014 a Maio de 2015, foram reintroduzidos 10 exemplares na região de Mértola. Kayakweru, uma das fêmeas libertada em Abril (12 dias depois de ser solta) não sobreviveu devido a envenenamento, tornando-se no primeiro lince a morrer em terras portuguesas desde o inicio do projecto. Na 2ª época já em 2015 envolveu nove os exemplares soltos no nosso território. Em 2016, Myrtilis, outra das fêmeas, apareceu também morta a 8 de Fevereiro, ao que parece a necropsia revelou uma infecção bacteriana. Esta fêmea fora reintroduzida juntamente com a fêmea Mirandilla e o macho Monfrague (ambas crias de Jarilla e Hache, nascidas a 22 de Março de 2015) a 25 de Janeiro.



Kahn
Kahn, é outro nome marcante do projecto do Lince no nosso país. Irmão de Kentaro, com base nos dados de GPS e outros indicadores, calcula-se que tenha percorrido cerca de 1500 km (entre Espanha e Portugal). Nascido em Silves, em 2013, foram reintroduzidos no seu habitat em 2014. Libertado com o irmão nos Montes de Toledo, no centro de Espanha, dirigiu-se para Portugal atravessando a nado o rio Guadiana a 28 de Junho, estabelecendo-se na região do Alentejo mais próximo do litoral. Entretanto desapareceu do controle de radar, não sabendo-se de algum problema com a coleira, visto que não foi encontrado nenhum cadáver que indicasse a sua identificação. Sabemos apenas que os registos GPS e as foto-armadilhas deram pela sua presença num extenso circulo da sua progressão errante sem fixação de um território estável. Neste momento, o seu paradeiro é desconhecido há largos meses. 

Ao todo, desde 2009, e graças a este programa já foram ou ainda serão reintroduzidos no decorrer deste ano… provavelmente 210 linces na natureza (contando com os previstos 40 exemplares de 2017). Dos 170 linces até ao final de 2016, pelo menos, 141 são provenientes dos centros de reprodução, os outros 29 tratam-se de indivíduos que haviam sido transferidos para cativeiro nos respectivos centros de reprodução.

A organização “Life Iberlince” estabeleceu a libertação para 2107 de 40 linces na Península Ibérica. As zonas estão demarcadas em Portugal (Vale do Guadiana) e Espanha (Vale de Matachel, Montes de Toledo, Sierra Morena Oriental, Cuidad Real / Guadalmellato / Guarrizas). Com a indicação de 8 exemplares por cada uma destas povoações. É já na consequência deste reforço populacional, que o ano passado (2016), nasceram em liberdade nos Montes de Toledo, 14 crias e 5 na zona de Cuidad Real. Tão ou mais importante que o aumento da população efectiva, estes dados são fundamentais para perceber adaptabilidade e o sucesso da reintegração desta espécie no seu habitat original.
Tal como para este ano, a temporada passada foram reintroduzidos no Parque Natural do Vale do Guadiana, 8 linces como estava previsto no programa “Iberlince”.


As libertações ainda no primeiro terço do ano de 2017, envolveram já seis fêmeas e dois machos dentro do território espanhol. A reintrodução em Guadalmellato (Córdova) indicaram que essas fêmeas foram: Noa (filha de Hubara/Hache), Niagara (filha de Fábula/Juncabalejo), e uma jovem fêmea nascida no centro de reprodução de La Olivilla (Jaén) sem nome (filha de Coscoja/Kilimanjaro)… (mais tarde baptizada de Niebla); o macho é Navío (filho de Jarilla/Gaspacho). Quanto a reintrodução em Guarrizas (La Carolina, Jaén, Andaluzia) os linces devolvidos à natureza são: Nambroca (filha de Fábula/Juncabalejo), Nieve (filha de Cynaray) e Nebraska (Filha de Fruta, e nascida no CNRLI); o macho é Nacar (filho de (Fárfara/Helio). Estes exemplares têm como missão sublimada aumentar a diversidade genética destas regiões.

Loro
Mas em Espanha, o ano de 2017, começou logo com a reintrodução do Lince-Ibérico na natureza em Fevereiro, com Natureza, uma fêmea nascida em 2016 no CNRLI. Este exemplar foi libertado na província espanhola de Ciudad Real (Castilla-La Mancha), concretamente, na reserva “Chicho Méndez” em Castellar de Santiago. Sendo um dos objectivos do projecto centrar também exemplares em territórios que no passado eram povoados pela espécie.



Loro
Também no mesmo período, um casal de lince foi liberto a meio (dia 17) do mês de Fevereiro em Portugal, no Vale do Guadiana. O macho Noudar e a fêmea Niassa (nascidos em 2016, no CNRLI, em Silves) juntaram-se aos 12 outros exemplares que habitam actualmente esta região alentejana. Fazem agora parte do grupo de linces existentes em liberdade (Jacarandá, Katmandú, Luso, Lagunilla, Liberdade, Mel, Macela, Mesquita, Mistral, Malva, Mirandilla e Moreira). Estes novos exemplares foram desde a sua nascença preparados para a reintrodução na natureza, e para tal, foi evitado totalmente o contacto directo com humanos. Permitindo assim, que a sua preparação comportamental estivesse o mais sintonizada possível com a sua natureza selvagem. Esta monitorização foi sempre acompanhada pelo sistema de videovigilância, para que fosse confirmada a evolução e a aptidão dos jovens linces às condições no seu habitat natural. A única intervenção humana, dá-se apenas, na vacinação e análises sanitárias dos animais, no período prévio às suas libertações. Um dos dados significativos, é que, estes linces passaram por um processo de libertação “espontânea”… quer dizer; chamado de “solta dura”, e não através da fase de adaptação em cercado. A razão deve-se hoje em dia, ao facto, de já existirem outros exemplares na região e que irão permitir que estes novos elementos se integrem mais rapidamente, empurrando-os pelo seu instinto natural a que encontrem eles próprios o seu território residente… algo muito característico na etimologia felina.

Loro
Sobre este efectivo existente na população em Portugal, no final de 2016,… os dados continuam-me confusos (ou incompletos) e incongruentes no número e na sua distribuição, até ao momento. Na informação que fui recolhendo e analisando, surgem-me incluído neste núcleo nacional outros exemplares como: Lítio, Lluvia, Loro (macho solto depois de recuperar de uma fractura), Kempo e Monfrague (macho solto em Janeiro de 2015, juntamente com duas fêmeas). 
   
Na senda do pré-estabelecido para 2017, em 22 de Fevereiro, uma quarta-feira e numa propriedade do Vale do Guadiana no Baixo-Alentejo , vindos do Centro de Reprodução de Zarza de Granadilla na Extremadura espanhola, foram libertados Naira (fêmea) e Noctulo (macho). Estes dois linces com cerca de um ano representam a segunda solta deste ano em território português. Aguardando-se agora, o resultado da progressão destes exemplares em liberdade; sabendo-se que são animais territoriais e que poderão dispersar com facilidade pelos 20.000 (a 70.000) hectares mais adaptáveis e com melhores condições naturais para esta espécie ou mesmo aventurarem-se por outras regiões geográficas, a expectativa é continuar acompanhar adaptação destes indivíduos em território português. Tal como, monitorizar o estado populacional das suas presas preferidas em termos da sua fixação e estabilidade.
Jacarandá
Entretanto, as cinco crias já nascidas em território nacional em 2016, já têm nome (com o apoio das escolas e populações locais, para além das equipas de monitorização). O único critério definido pelos responsáveis ibéricos, é aquele que tem sido utilizado todos os anos para identificar cada exemplar, através da designação de um nome começado sempre pela mesma letra e que muda de ano para ano; neste caso foi a letra “N” atribuída a 2016. As crias Nógado, Navarro, Neblina, Nuvem e Nossa serão também elas agora fundamentais para o repovoamento do Lince-Ibérico no nosso país. Como nota genealógica, é preciso referir que as quatro primeiras crias são todas da mesma ninhada da fêmea Lagunilla. Por seu lado, Nossa, foi observada acompanhar o primeiro casal de Linces em liberdade: Jacarandá e Katmandú. Aumentando para um total nesta altura, de 21 linces-ibéricos nesta região crucial para o programa.

No fim do segundo mês deste ano, calculava-se que fossem cerca de 475 os linces no seu habitat. A grande concentração dá-se em Andaluzia, onde esta população provavelmente de 389 indivíduos, se estende por: Doñana-Aljarate e a Serra Morena; o que neste caso refere-se a: Guadalmellato, Guarrizas, Aldújar-Cardeña. Sabemos também que destes números oficiais, 19 encontram-se em território português, na região do Vale do Guadiana. Em Matachel, na província de Badajoz, o número de linces deverá apontar para 28. Em Toledo, nos Montes de Toledo, serão 23 os felinos existentes. Os restantes 16, povoam a zona da Serra Morena Oriental. Contudo, ainda é cedo para fazer um balanço do crescimento populacional para 2017. Número sempre provisório à medida que a temporada vai avançando. Neste momento, em Maio de 2017, calcula-se que exista este número quase mágico… 483 Linces-Ibéricos em liberdade (quando há 4/5 anos atrás a população rondava entre as três centenas e as três centenas e meia).

Mel
Uma das ajudas preciosas, para que estes dados sejam o mais concretos possíveis; são as mais de 40 câmaras de foto-armadilhas, distribuídas por diversos pontos estratégicos do habitat definido para manter a população do lince controlada, para além, das equipas técnicas (10 pessoas envolvidas), que os monitorizam periodicamente, através telemetria remota e telemetria tradicional. Mas existem sempre contrariedades que os fazem perder dados, seja com as avarias técnicas seja com cartões derretidos devido ao calor seja com fim das baterias.

Foi em parte, devido a este trabalho persistente, que se detectou um lince no terreno com uma fractura da tíbia no membro posterior esquerdo. Loro (nascido em 2014, em El Acebuche), pode assim ser capturado a 9 de Julho e intervencionado cirurgicamente (no Centro de Cirurgia Veterinária de Loures, pelo Dr. Rafael Lourenço) para correcção da fractura. Fazendo a sua recuperação no CNRLI em Silves. Após a remoção dos ferros correctivos, no seu processo recuperativo mostrou-se em perfeitas condições para voltar à sua condição de liberdade, sendo solto a 2 de Novembro de 2015. Este Lince havia sido libertado da primeira vez na zona mais oeste da Herdade das Romeiras, em Mértola, a 16 de Abril de 2015, juntamente com a fêmea Liberdade, após passarem pelo período de “solta branda”; dentro do cercado de adaptação desde 3 de Março. Uma das informações que recolhi, que me pareceu bastante importante neste trabalho das equipas no terreno; é o facto de permitirem o seguimento dos exemplares que dispersam para lá da região do Vale do Guadiana, e desta maneira, poder-se controlar com mais certeza os potenciais riscos que envolvem estes exemplares, sejam urbanos sejam eles causados em condições naturais.

Outra das boas notícias aconteceu, no primeiro dia de Março. A população português ficou bem mais rica. De Espanha, vieram uma fêmea chamada Neves e um macho Nerium. A primeira nasceu o ano passado, no dia 3 de Abril, no Centro de Cria de Lince Ibérico de La Olivilla (em Santa Elena-Jaén, criado em 2007). O segundo nasceu no Centro de El Acebuche (Matalascañas em Huelva, o mais antigo dos centros e a funcionar desde 1992). A região de Mértola, é por enquanto, o grande foco da estabilização da população de linces em Portugal, no projecto “Iberlince – Recuperação da Distribuição Histórica do Lince Ibérico em Espanha e Portugal”. Assim, o Lince-Ibérico em território português, conta agora com 23 espécimes. Para já 2017, está marcado pelo dia 17 e 22 de Fevereiro e 1 de Março, depois das 3 soltas deste felino tão ameaçado. Tendo em conta o que estava projectado para as reintroduções em Portugal, faltam apenas 2 dos 8 linces que estavam previsto serem soltos no nosso território.

De acordo com ICNF (Instituto de Conservação da Natureza e Florestas),  esta população só será considerada viável e estável, quando pelo menos 50 fêmeas radicarem em caracter permanente, nesta região alentejana.

Até 2016, tinham sido introduzidos na natureza cerca de 44 linces nascidos no CNRLI de Silves e pelo menos 12 deles já haviam gerado crias em liberdade.



Uma questão é certa; houve uma enorme evolução no acompanhamento e no tipo de intervenção dos processos de reprodução do lince em cativeiro. Para se ter uma ideia, no ano de 2009, altura em que arrancou o programa de reprodução; em Espanha, cerca de 40% das crias não sobreviveram. Hoje a taxa no sucesso da natalidade é superior 85%.

Mas nem sempre o resultado na sobrevivência das ninhadas é bem sucedido. A mortalidade é recorrente todas as temporadas. Tal como, nem sempre todas as parelhas resultam em fêmeas gestantes, mesmo que em épocas anteriores isso tenha acontecido. Infelizmente, há pelo menos três factores constantes que podem influenciar o falecimento das crias. Um ou dois deles nos primeiros dias ou semanas de vida dos pequenos linces. A septicemia neonatal, uma infecção bacteriana generalizada, atinge algumas das crias todas as temporadas. Também o abandono, a inexperiência ou a morte em consequência dos ferimentos causados por repentinos maus tratos provocados pela progenitora, ditam uma percentagem das crias não sobreviventes. Segue-se igualmente, um momento sempre critico nos primeiros meses de vida, que se dá com as lutas fratricidas entre os jovens linces, nas agressividades territoriais e de domínio dentro das ninhadas. Estas situações são difíceis de controlar e prever, e quando detectadas, são normalmente tarde demais para que se possa intervir a tempo de evitar o pior.

Ou pelo contrário, também já aconteceu, nas monitorizações ocorridas no terreno, poder-se intervir a tempo, aquando de um hipotético abandono extemporâneo de uma ninhada. Em meados do mês de Abril, os técnicos do projecto (LIFE+Iberlince) tiveram que salvar uma ninhada de duas crias que se encontravam abandonadas no Parque de Doñana, na Andaluzia. Após se aperceberem pelos diversos registos, da constante distância a que se manteve a fêmea Iris (com cerca de 10 anos, conhecem-se apenas 5 desendentes e somente um sobreviveu até à idade adulta), resolveram intervir e retirar a crias. De seguida, e depois de verificarem a estado delas, voltaram-nas a colocar no respectivo local. Todavia, a espera controlada e mantida a fim de verificar a regresso da fêmea para junto das crias tornou-se infrutífera. Os técnicos resolveram intervir mais uma vez depois de mais de uma dúzia de horas de observação. Esta iniciativa foi tomada no momento exacto, pois as crias já se encontravam em perigo de vida, com hipotermia e infestadas de moscas. Felizmente com vida, foram transportadas para o Centro de Criação do Lince-Ibérico de El Acebuche. Nunca é uma solução fácil de tomar; estas equipas sabem por experiência que os animais não têm todos comportamentos idênticos, formatos ou tipificados, o que isto os impede de tomar estas iniciativas que possam alterar qualquer circunstancia temporal. Neste caso, a evidência era demasiado clara, e foi esta a razão que permitiu a sobrevivência destes novos exemplares que irão potencializar a diversidade genética e a capacidade reprodutora, para além de novas reintroduções na natureza.

Doñana tem uma população razoável de indivíduos (falamos entre 70 a 75 linces). O último censo em 2016, identificou 74 exemplares, com pelo menos 24 fêmeas territoriais e 16 crias distribuídas pelos casais reprodutores.  
       
No dia 24 de Abril deste ano, a população de Guadalmellato foi aumentada com dois novos exemplares; Noa (uma fêmea) e Navío (um macho). Nascidos no Centro de Zarza de Granadilla em 2016. Esta população era composta por 55 indivíduos, com apenas 14 fêmeas territoriais. No dia seguinte, a 25 de Abril, foi a vez de Namibia (nascida no mesmo centro), ser liberta no Vale de Matachel na região de Badajoz, através do processo de solta “dura” (sem passar por um cercado de adaptação); são cerca de 28 os linces residentes neste local, porém, somente um dos exemplares é uma fêmea… facto que não compreendo ou então não tenho dados suficientes para entender, pois com tantos exemplares libertos na natureza em áreas tão demarcadas… como pode existir um núcleo tão desequilibrado e exposto a um risco não-reprodutivo tão elevado.  
   

Este ano o habitat natural do Lince-Ibérico já foi “abençoado” no sentido da preservação da espécie e conservação deste população tão ameaçada (é preciso não esquecer que em 2002, calculava-se que existissem apenas cerca de 100 indivíduos; isto numa situação sem uma intervenção capaz, seria o principio da extinção)… com o nascimento de pelo menos 3 ninhadas. Estes partos ocorreram em região espanhola nos locais da reintrodução da espécie. As progenitoras são: Mesta (que teve 2 crias confirmadas) na Serra Morena Oriental, libertada em Fevereiro de 2016, com o macho territorial Milvus (irmão de Mistral, solto em Portugal, e filhos de Hubara e Juncabalejo, nascidos em 2015 em Granadilla); Kiowa (com 2 crias) também na Serra Morena Oriental, nascida em 2013 no centro de Zarza de Granadilla e libertada em Julho de 2014, sabendo-se que em 2016 já fora mãe de 3 crias; Malvasía (4 crias) nos Montes Toledo, em Castilla-La Mancha, libertada também em Fevereiro de 2016 e proveniente também de Granadilla, nascida de Guara e Helio na temporada de 2015 . Qualquer destas fêmeas tem mostrado um cuidado materno, uma dedicação e um afecto espantoso no tratamento das suas ninhadas. Esta localidade de Serra Morena Oriental, tem uma das menores populações de linces em liberdade. A região precisa, provavelmente, de melhores condições para a sobrevivência e a sustentabilidade alimentar dos indivíduos. De acordo com os censos do ano passado, foram registados 16 exemplares residentes.

Até 2016, tinham sido libertados na Andaluzia 86 linces. Na região de Guadalmellato em Córdoba, dos 48 soltos mantêm-se vivos 28. Em Jaén, na área de Guarrizas, foram 44 os linces libertos e destes encontram-se vivos 29. Cerca de 65 a 66% são os dados estatísticos da sobrevivência da espécie na região. Pode até ser um índice acima do previsto, porém, os dados mais realistas são a morte 57 linces deste projecto só nestas áreas. Quer se queira quer não, falamos de mais de meia centena perdas, mais de 50 % de toda população existente em 2002 na Península, para além do desaparecimento de uma significativa representação genética. Basta só lembrar, que ainda há pouco mais de um mês (28 de Abril), um jovem macho nascido  em 2016 nos Montes de Toledo, foi encontrado morto por atropelamento na Estrada CM-410. Como também na A-301 em Jaén, na região de Guarrizas, havia sido encontrado atropelado, a 6 de Abril, o cadáver de uma jovem fêmea com cerca de um ano, sem GPS. A 31 de Março, fora a vez de um outro macho, igualmente atropelado, e este com radiotransmissor, somente não consegui saber o seu nome até agora. Esta é uma realidade evidente; e não tenho conhecimento de outro mamífero, de outro felino, tão ameaçado de extinção, que esteja sujeito a este tipo de riscos consentidos e a uma complacência enorme das autoridades nesta situação… como o Lince-Ibérico! O resultado está à vista neste primeiros meses, como estão nos números de 2016 (com 15 linces atropelados; 13 na Andaluzia, 1 em Castilla-La Mancha e 1 em Portugal), assim como nos números de todos os anos anteriores. No passado, na Andaluzia, até 2012, já tinham morrido atropelados 30 linces, durante um dos períodos mais críticos da espécie.


Como nota de registo para este artigo, lembro que em 2013, o CNRLI já colaborara com algumas das suas crias no projecto de reintrodução de exemplares em Espanha. Jazz (filha de Castañuela e Fado), Joaninha (filha de Fruta e Fresco) libertadas em Guarrizas em 21 de Junho; Joio e Janeira soltos também em Guarrizas a e Jeropiga e Joeira em Guadalmellato a 14 de Março (os quatro filhos de Fresa e Eón). A 5 de Junho haviam sido libertos em Guadalmellato, Jembe e Jiga (mais duas das 4 crias de Castañuela e Fado) com Jedi (filho de Flora e Foco). Em 18 de Junho foram foram libertados Jam (a outra cria de Castañuela e Fado) e Janga (filha de Flora e Foco) desta feita em Guarrizas.
Malva com 3 das suas 4 crias de Mundo, a outra só surge nos segundos seguintes do filme.
Uma outra notícia relevante sobre a população do lince na Peninsula, parece ser o corredor natural que liga os dois países. Esta conectividade, permitiu pela primeira vez (pelo que se sabe), a união entre um macho solto em Espanha e uma fêmea residente no Vale do Guadiana. Mundo é um macho de dois anos, nascido na natureza no Parque Nacional de Doñana e não marcado por coleira, viajou cerca de 170 km até entrar em território nacional na região do norte alentejano. Quanto a Malva, libertada em Fevereiro de 2016, deslocara-se para norte do Vale do Guadiana, estabilizando-se perto do rio, no concelho de Serpa. O encontro do casal em Dezembro do ano passado fez com que fixassem o território nesta zona. Desta ligação é quase certa a primeira ninhada de 2017 ali localizada. O macho mantem-se perto da família. Contudo, a excelente notícia é a interligação entre duas populações que se encontram separadas de todas as outros existentes, permitindo assim a esperança da transmissão da troca de genes entre elas; ambas são populações bastante isoladas. Esta conexão é importantíssima, e demonstra acima de tudo a facilidade da dispersão dos exemplares como um extraordinário instinto em se orientarem e se localizarem entre si, para além da viabilidade das populações. A população de 76 linces de Donãna-Aljarafe talvez seja aquela com menor diversidade genética, por isso existe um esforço para reforçar este núcleo com crias nascidas em Serra Morena, onde existe a actual maior população de Linces-Ibéricos. Sabe-se que hoje em dia, 60% das crias nascidas em Doñana já provêm de linces aqui libertados.

O fim da temporada de partos em 2017, sabemos que se deu no Centro de El Acebuche. A fêmea Homer deu a luz 2 crias, do macho Esparto, no dia 22 de Maio. Falta agora esperar umas semanas mais e aguardar pelos resultados dos novos linces a juntarem-se ao Programa de Recuperação do Lince-Ibérico. 

Nara, é o nome do último lince libertado esta temporada no Vale do Guadiana, na Herdade das Romeiras, no dia 24 de Maio. Uma fêmea de 9,8 kg, nascida em Março de 2016 no Centro de Cría do Lince-Ibérico de El Acebuche. Mal foi libertada em poucos segundos desapareceu entre a vegetação, apenas uma hesitação momentânea para se orientar. Passando a ser o 27º lince a ser reintroduzido no nosso território. Três deles morreram por atropelamento, doença e envenenamento. Outros cincos estão dados como desaparecidos e desconhecendo-se o seu actual paradeiro. Devemos juntar a este efectivo, as 5 crias nascidas o ano passado, hoje com um ano de idade e se tudo correr bem como se espera, mais as dez já nascidas em liberdade durante 2017, filhos de Mirandilla (e de Luso), de Lagunilla (com Luso), Jacarandá (e de Katmandú), Lluvia (com Katmandú) e Malva (e Mundo). Poderá entretanto, haver outras ninhadas, pois há mais fêmeas territoriais e reprodutoras no Vale do Guadiana.  



QUANDO A MORTE É O ATROPELAMENTO…

A fêmea Melisandre, nascida no CNRLI de Silves, em 2015 foi encontrada morta em Janeiro deste ano, num laço de uma armadilha ilegal de uma reserva de caça em Jimena (Jaén, Andaluzia. Esta fêmea, portadora de colar GPS, fora reintroduzida na natureza em Guarrizas (Jaén) a 16 de Fevereiro de 2016. Um dia antes de Maravillas em Guadalmellato e três semanas antes de Medea e Menta serem libertas na Extremadura espanhola. Apesar do Serviço de protecção da Natureza da Guarda Civil e de Agentes da Junta da Andaluzia posteriormente, procurarem eliminar as armadilhas ilegais, a reserva de caça continua a permitir que estas práticas criminosas ocorram. Esta fêmea fazia parte dos mais de uma centena e meia de linces nascidos em cativeiro e já reintroduzidos no seu habitat, desde 2009.

Neste mesmo mês de Janeiro, durante a segunda semana, outros três linces foram encontrados mortos. Dois deles atropelados (um macho e uma fêmea), nas fatídicas auto-estradas (EN-420 em Córdoba e A-421 em Ciudad Real-Viso del Marqués) espanholas para a vida selvagem. Kaplán era um dos primeiros exemplares libertos em Castilla-La Mancha, no âmbito do programa IberLince em 2014. Um macho de grande porte, com cerca de 14kg. Nascido em 2013, no Centro de Reprodução de La Olivilla (Jaén) fora reintroduzido em Julho de 2014 na região da Serra Morena numa propriedade em Almuradiel (Ciudad Real). Este macho extremamente importante, por ter sido pai o ano passado, já em liberdade, de duas ninhadas, sempre permaneceu na zona de libertação. Calcula-se que as fêmeas com que tenha emparelhado sejam Kiki e Kiowa. A necropsia revelou lesões musculares, fracturas antigas, hematomas e bastante debilitado; levando a suspeita também que na origem da sua morte estivesse um problema renal. Algumas destas mazelas poderiam ser consequência de uma rivalidade territorial que teve com Kivu, um macho de porte franzino que acabou por ser encontrado morto (esta causa de morte nunca foi apurada se deveu a alguma luta entre eles), e que procurava acasalar com Kiowa.

Pouco dias depois desta notícia anterior, um outro exemplar, uma fêmea com cerca de seis meses, foi encontrada morta por atropelamento na estrada Nacional 502, entre Espiel e Alcaracejos em Córdoba.


Hongo nasceu na natureza, foi salvo devido ao estado de fraqueza.
E depois de recuperar...
Foi reintroduzido no seu habitat original.
Tal como Hongo, o terceiro Lince a morrer em território português. Exemplar libertado em Aznalcazar, em Espanha (em 2011), que percorreu algumas centenas de quilómetros até se instalar em Portugal. O seu colar transmissor deixou de funcionar a 16 de Outubro de 2012. Este animal circulou pelos nossos cerrados entre 2013 e 2015. Fora de novo localizado em Maio de 2013 na zona de Vila Nova de Milfontes. Seguido a partir daí por foto-armadilha e vestígios naturais pelos técnicos do ICNF. Contudo, não evitaram o pior, acabando a vida, atropelado, na A23 junto a Vila Nova da Barquinha, no dia 22 de Outubro de 2015, com quatro anos.

Durillo
Outro tributo que aqui quero deixar é a Durillo. Este lince com 10 anos, faleceu a 12 de Janeiro deste ano, com uma insuficiência respiratória. Um magnifico, resistente, perseverante e emblemático exemplar do programa de recuperação desta espécie. O destino foi sinuoso para este macho, em 2012 sofreu uma amputação do membro posterior direito numa armadilha ilegal de laço. Retirado do seu meio natural passou a integrar o plano de reprodução. Nos cinco anos enquanto permaneceu na natureza, o seu historial de procriação não foi prolifico; apenas teve uma companheira. De Viana, gerou duas ninhadas em diferentes temporadas, com cinco crias ( três delas ainda vivas: duas fêmeas e um macho)… que mantêm o legado genético deste belíssimo exemplar no Parque de Doñana. Em cativeiro, foi emparelhado com três fêmeas diferentes, tendo de cada uma delas, 4 crias. Destes, seis já foram libertados em novas zonas de reintrodução. Espera-se que as suas últimas 4 crias de 2016, sejam igualmente reintroduzidos no seu habitat, estando já a ser preparados para ingressar em zonas da distribuição histórica desta espécie. Este animal mesmo vaticinado a um destino opaco, surpreendeu tudo e todos, deixando pelo menos 15 linces descendentes com genes que certamente foram uma diferença sublime nas novas gerações de lince-ibéricos em liberdade.

Outra das contrariedades que muito entristece todos os que trabalham nestes projectos, é uma típica patologia que afecta os felinos em geral. A Insuficiência Renal Crónica (IRC), é uma enfermidade com três fases patológicas, mas que controladas possibilitam uma qualidade vida e longevidade razoável. Porém, é sempre difícil de prever e intervir atempadamente, quando a doença progride e entra numa fase critica e terminal. É a história de Alandalus, um macho de 10 anos nascido em liberdade, que entrou no programa de reprodução em cativeiro em Setembro de 2007, no Centro de El Acebuche. Em 2009, após exames foi-lhe detectado um estado avançado da doença em fase terminal. Contudo, os tratamentos paliativos administrados, permitiram que este exemplar mantivesse no centro uma qualidade de vida assegurada; não participando nas temporadas reprodutoras apenas devido a falta quase total de produção espermática. Infelizmente, a situação deteriorou-se muito em 13 de Outubro de 2014. O Centro acabou por decidir pela eutanásia dois dias depois, evitando assim o sofrimento deste infortunado exemplar. Nessa altura existiam 23 linces em todos os centros padecendo desta patologia, distribuídos pelas 3 fases da doença, porém todos eles nessa altura com uma qualidade de vida satisfatória. Hoje e três anos depois, não sei dizer quais os casos ainda de longevidade destes exemplares.

Nodriza
Todavia, são os abandonados as situações mais recorrentes e problemáticas para as equipas dos centros. As decisões são muitos difíceis e podem pôr em riscos toda a ninhada, e impedir mesmo o processo de reintrodução em liberdade. Salvar uma cria e tentar que seja de novo aceite pode implicar o abandono das restante, como pode ser de novo rejeitada. No entanto, encontrou-se uma solução preconizada por esta extraordinária espécie; aceitação por uma mãe substituta, quando a própria mãe não a recebe. Esta opção todas as vezes que foi tentada em qualquer um dos centros foi um êxito maioritariamente, excepto em duas ocasiões. Graças a este sucesso: Huelva, Jabaluna, Jazmín, J1Caña, J2Caña, Jacamarina, Jaral, Juromenha e Janes, Janas e Jandra foram alguns dos adaptados de novo e puderam continuar assim dentro do programa de reintrodução na natureza.             
A notícia mais recente destes fatídicos atropelamentos, ocorreu já este mês de Maio e em território nacional, que não tem sido vulgar, felizmente (apesar de não nos podermos esquecer que estamos perante uma população muito mais pequena com uma distribuição muito mais restrita). Neco, um exemplar de quase 13 kg, nascido no Centro de Zarza de Granadilla, em Espanha e libertado na região de Mértola no dia 18, encontrou a morte ou no próprio dia 17 ou dia seguinte, numa estrada Municipal entre Mértola e Corte gafo de Cima. São 10 km de estrada perigosa para a vida selvagem; um alerta dramático que aqui fica para todos os que circulam nesta IC27. A libertação deste lince tinha como intuito perfazer 26 exemplares em liberdade no nosso país e era a penúltima solta deste ano, fazia parte dos oito lince previstos na reintrodução no Vale do Guadiana. Infelizmente, este é o primeiro lince reintroduzido no nosso país a ser atropelado e o 4º a morrer nas nossas estradas. Seria o 26º lince a integrar a população nacional. 

Caribu, tal com Kentaro ou Kahn... tem uma história extraordinária.
A WWF espanhola já advertiu diversas vezes o Governo de Madrid (Ministério do Fumento), que este mantem o incumprimento das medidas que se comprometeu a implementar para reduzir ou acabar com os considerados pontos negros dos atropelamentos (as passagens aéreas e subterrâneas fazem parte dessas promessas). Soube entretanto, que só em 2014, morreram 22 linces atropelados… é por isso, que continuo afirmar, que a condição do Lince-Ibérico e o regresso desta espécie ao seu meio com estabilidade (segurança na conflitualidade urbana e selvagem) e sustentabilidade natural está ainda longe de ser conseguida.

São extraordinários, do ponto de vista da sobrevivência desta espécie, os relatos sobre a dispersão entre os dois países, de exemplares errantes que nunca fixaram um território estável. Se por um lado, pode ser fulcral para a diversidade genética e a possibilidade de criação de novos núcleos da população de lince... por outro lado, a não fixação de um território também não garante a desejada procriação e o arrastar com eles de fêmeas territoriais. Todos os mais significativos relatos indicam este comportamento sempre associado a machos. Em 2010, Caribu, Hongo em 2013, Kahn e Kentaro em 2015, Lítio e Mundo em 2016. Todos estes percursos foram feitos na direcção do território português, excepto Lítio que se dirigiu do Vale do Guadiana para o Parque de Doñana. Três deles morreram (Caribu, Hongo e Kentaro, Kahn está dado como desaparecido, Mundo reside agora perto de Serpa, e Lítio encontra-se provavelmente em Doñana. A História de Caribu, é igualmente fantástica, capturado por três vezes, insistiu sempre pela errância como quase de um trágico faticinio, parece que a fome e a desnutrição ditaram a morte deste magnífico animal a 25 de Setembro de 2010.

Kentaro
Kentaro, é o meu símbolo da luta pela sobrevivência do Lince-Ibérico e um dos meus tributos pela conservação das espécies. Este exemplar nascido em 2013 no CNRLI em Silves, é até à data a maior referência do espirito errante e dispersante que podem ter os machos desta espécie. Tal como o irmão Kahn, este espécime viajou provavelmente como nenhum outro lince, ao longo de mais de 3000 km. Atravessou uma boa parte do território espanhol (entre os Montes de Toledo, a Barragem de Castrejon no rio Tejo, as províncias de Madrid, Cuenca ou Guadalajara, cruzando a norte do rio Tejo até ás províncias do sul de Soria e Zaragoza, retorna a Soria até à região de La Rioja seguindo até à região de Zamora) e tentou regressar em Agosto de 2015 a Portugal a norte de Vimioso no nordeste transmontano, no fundo ao seu país de origem, apesar de ter sido libertado, como já referi, nos Montes de Toledo, (na propriedade El Castañar no Municipio  de Mazarambroz) a 26 de Novembro de 2014. Este extraordinário lince, depois de ter percorrido o norte da península, atravessado grande parte da cordilheira cantábrica, tentado entrar em território português, dirigiu-se de novo para terras espanholas onde foi alvo de uma tentativa de captura falhada em Dezembro de 2015. O seu rasto perdeu-se nessa altura, só tendo-se conhecimento da sua posição quando foi encontrado morto por atropelamento numa estrada no concelho da Maia no dia 15 de Maio de 2016, após mais uma progressão de centenas de quilómetros. Depois da perda do contacto com a sua localização, calculava-se pela última indicação da sua coleira GPS que vagueasse perto de Ourense. Através da monitorização é de crer que KENTARO tenha percorrido durante esta digressão errante mais de 3000 km entre os dois países. Tinha três anos!

A recuperação da espécie terá de continuar a contar com esta rede essencial de Centros de Crias, para o futuro do Lince-Ibérico:
- Centro de Cría “El Acebuche”, no Parque Nacional de Doñana, Matalascañas (Huelva). Inaugurado em 1992, e com 18 instalações para linces.
- Zoobotánico de Jerez, em Jerez de la Frontera. Inaugurado em 2005, e com 5 instalações para linces.
- Centro de Cría La Olivilla, nos Montes de La Aliseda, Santa Elena em Jaén. Inaugurado a 19 de Janeiro de 2007, e com 23 instalações para linces.  
- Centro Nacional de Reprodução de Lince Ibérico/CNRLI, no Centro de Silves, no Vale Fuzeiros. Inaugurado a 21 de Maio de 2009, e com 16 instalações para linces.
- Centro de Cría de “Granadilla”, em Zarza de Granadilla, Cáceres. Inaugurado em Março de 2011, e com 16 instalações para linces.


SÃO MUITOS OS NOMES QUE ME FALTARAM MENCIONAR, SÃO MUITOS AQUELES QUE POR INSUFICIÊNCIA DE INFORMAÇÃO NÃO CONSEGUI PRESTAR O TRIBUTO QUE QUERIA… MAS, FICAM AQUI MUITOS DAQUELES QUE CADA UM NÓS PODE REFERIR ALGUÉM NOSSO CONHECIDO PARA QUE TODOS LEMBREMOS CADA UM DOS LINCES QUE LUTOU A PRESERVAR UMA ESPÉCIE AMEAÇADA DE EXTINÇÃO.


A MINHA SUGESTÃO FICA AQUI NUM DESAFIO… PORQUE NÃO, CADA ESCOLA ESCOLHER UM DESTES LINCES COMO EMBLEMA DE UMA QUALQUER SALA DE AULAS, SERIA UMA BONITA MANEIRA DE MOSTRAR ÀS NOSSAS CRIANÇAS E AOS NOSSOS JOVENS A IMPORTANCIA DO LINCE-IBÉRICO… SÃO 140 NOMES. 

Como dados, em jeito de nota final, e para que se melhor entenda quem são estes linces... e de onde vêm; ficam aqui algumas das tabelas relativas às temporadas de reprodução:


temporada 2017
temporada 2016
temporada 2015
temporada 2014
temporada 2013
temporada 2012


   

1 comentário:

  1. Sendo a LETRA "O" designada para os esxemplares nascidos em 2017;
    seria interessante dar uma lógica de continuidade a muitos dos nomes existentes...
    Olimpo. Osiris. Olga. Olivia. Oman. Oviedo. Orgulho. Orvalho. Orquídea. Oki. Oscar. Oprah. Oriol. Odin. Oneida. Omar. Oihana. Oriana. Oriel. Olaf. Olya. Olena. Olimpia. Ondina. Odilia. Opal. Okelani. Orangel. Olive. Opalina. Oni. Oma. Oke. Otelo. Ofelia. Olujimi. Oceania. Ottar. Oliana. Oran. Odilon. Ovidia. Onella. Obi. Olaja. Orestes. Osahar. Oline. Orion. Olexa. Onora. Oba. Orva. Oxa. Oberon. Otylia. Odion. Ottah. Obama. Orabela. Estes são alguns nomes de inspiração histórica e mítica!

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AGRADECIMENTOS

Este Blog tem como finalidade a divulgação de uma mensagem que nos lembre a todos nós o quanto é possível fazer para defender seres que precisam da nossa protecção. Quer aceitemos quer não, somos os principais culpados por os animais sofrerem com o nosso comportamento.



Quero agradecer a todos aqueles que por razões diversas vejam fotos da sua autoria e ideias ou estudos dos quais as minhas investigações foram alvo e não se encontrem citados. Caso seja primordial essa referência para eventuais pessoas ou organizações que se sintam mais lesados desde já solicito essa indicação que de pronto farei as respectivas correcções que venham a ser solicitadas. Estes usos foram feitos sempre em nome de um alerta e de ajuda à divulgação de uma causa, por isso nunca com qualquer pretensão de apropriação, mas sim também para dar à mensagem mais consistência e valor nos temas visados.



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